Sexta-feira, 20 de Julho de 2007

As Carpideiras - Senhoras da Vida e da Morte

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             Fig.1 - Um grupo de Carpideiras - Túmulo de Ramesés

 

As Carpideiras – senhoras da vida e da morte

 

      A morte é o grande enigma da existência humana, dando-se, por isso, desde os primeiros povos da humanidade, enorme importância às cerimónias fúnebres. Já o Homem de Neanderthal (Homo Neanderthalensis) fazia aos defuntos covas cuidadosamente escavadas, decoradas com flores e outros motivos simbólicos, evidenciando a antiga crença na vida após a morte.

            Um dos povos que mais importância deu à mitologia da morte foi a civilização egípcia, erguendo túmulos imponentes em devoção aos mortos, (as célebres Pirâmides), que ainda hoje estão entre as grandes maravilhas do mundo.  

            Os funerais sempre tiveram grande importância para o homem, o qual manifestou diversos comportamentos interiores e exteriores perante a perda.

            Herdeiras de uma arte milenar, míticas e respeitadas ao longo de vários séculos, uma vez que guardavam os segredos da cura e louvação dos mortos, as Carpideiras foram indispensáveis nos rituais fúnebres até aos finais do século XIX.

            Embora não saibamos as suas origens, temos conhecimento que, no Antigo Egipto, o enterro era um acontecimento lúgubre e pitoresco ao mesmo tempo, que quantas mais carpideiras tivessem, mais elevado era a posição social do morto. Os familiares do defunto faziam questão de oferecer um verdadeiro espectáculo por onde passava o velório. Iam gesticulando e soluçando durante todo o trajecto. Para que a dor que todos sentiam ficasse ainda mais patenteada e ninguém tivesse dúvidas a esse respeito, as carpideiras profissionais eram devidamente contratadas. De vestes desalinhadas, peito desnudo, rosto pintado com lama, cabelos despenteados, chegando mesmo a arrancá-los e a simular desmaios, não cessavam de gemer e de bater nas próprias cabeças em patético gesto de desespero. Criavam, assim, um impacto incrível perante os presentes durante todo o ritual. Possuíam um diversificado leque de textos e cânticos, nos quais suplicavam a ressurreição espiritual do morto, ao longo de todo o cortejo fúnebre. As cenas representativas da acção das carpideiras são uma constante nas paredes dos túmulos de personagens tão proeminentes como é o caso de Ramsés (Fig.1), que legaram à eternidade os lamentos embebidos em lágrimas e impregnados de um desespero ensaiado, que as carpideiras proferiam entusiasticamente.

            Também, na civilização romana, divulgaram oficialmente a indispensabilidade ritual das carpideiras, dividindo-as em duas classes: a Prefica, paga para cantar os louvores do morto, e a Bustuária, que acompanhava o cadáver ao local da incineração, pranteando-o estridentemente, segundo a tabela dos preços. Estas mulheres vertiam as lágrimas em pequenos vasos tubulares de vidro. Conforme a quantidade de líquido contido no tubo, assim recebiam o pagamento da família do morto.

            Actualmente esta profissão já perdeu todo o seu fulgor, deixando de ser essencial, embora em Africa, Ásia e algumas regiões do Brasil ainda existe o ritual de contratarem estas mulheres para as cerimónias fúnebres. Até hoje elas guardam os mistérios de rezas que servem tanto para acabar com a doença dos vivos quanto para encomendar a Deus a alma dos mortos.  

            Mesmo em processo de desaparecimento, essa antiga tradição mediterrânea ainda respira com força na localidade de Sítio Capim, a menos de vinte quilómetros do centro da cidade de Arapiraca (Brasil). Lá, as últimas carpideiras trabalham na roça e benzem os enfermos enquanto esperam o chamado para rezar e chorar nos velórios da região.

            As carpideiras eram a bem dizer “choradeiras profissionais”, que lacrimejavam pelo defunto alheio. Mediante um pagamento (alimentos, roupas ou dinheiro), estas mulheres animavam no velório com uma mágoa colaborante e incrivelmente ruidosa.  

            Diante do cadáver, excitando as lágrimas da família com frases exaltadas e gesticulações inimitáveis e dramáticas, tinham também como função fazer: o quarto ao defunto, a guarda, a sentinela, o velório. Eram as iniciadoras do canto na missa, entoando louvores com a voz sinistra e apavorante, logo causando impressão inesquecível para a assistência.

 

            Em Carção, em tempos mais longínquos, talvez até finais do século XIX ou inícios do século XX, na etnia judaica, também estas mulheres foram essenciais para que o funeral fosse completo e a perda sentida pelos familiares se mostrasse irremediável.

            Eram normalmente várias mulheres trajadas inteiramente de negro, de longas saias, blusas e xailes compridos sobre a cabeça, que tratavam de toda a cerimónia fúnebre, desde os primeiros preparativos em casa até ao enterro, entoando sempre um pranto teatral e constantes incentivos ao choro dos familiares e amigos. 

            É costume ainda dizer-se: “morto sem choro…” ou o enterro teve pouca carpideira…”, significando indiferença ou abandono total pelos familiares e amigos.   

            A memória das carpideiras, outrora tão fundamentais nos rituais fúnebres em Carção, já não são muitas, mas foram salvaguardadas pelos registos do Senhor Francisco Rodrigues, no livro “Carção – suas gentes, usos e tradições”. Aí se lê:   

            Quando morria um judeu, os seus familiares chamavam certas mulheres a quem pagavam a jeira (geralmente um alqueire de pão), como se de qualquer vulgar trabalho se tratasse, a fim de chorarem o morto. Eram as carpideiras, a cujo pranto chamavam bradório.

            Diz-se que muitas vezes as carpideiras, em vez de chorarem o morto, iam dizendo entre – dentes: “Eu não choro por ti, choro pelo meu alqueire de pão, que não sei se mo darão ou não”. Ora facilmente se depreende daqui que havia judeus pobres e, portanto, sem possibilidade de pagar, ou até que “pregariam o calote” depois do serviço feito.

            No velório colocavam à volta do defunto luzes de cera ou de azeite e, nos primeiros dias que se seguiam ao funeral, continuavam as rezas pelo morto. Na mesa onde estivera depositado o falecido, punha-se uma pessoa de família, ou, algumas vezes, uma pessoa estranha, a quem pagavam para o efeito. Colocavam à volta as luzes e seguiam as rezas e cerimónias por alguns dias[1].

            Também Francisco Alves (Abade de Baçal), nas referências ao culto religioso dos judeus em Carção, faz referência a um certo número de mulheres que eram contratadas para tratar de toda a cerimónia fúnebre, apelidando-as de rezadeiras, não sabendo se também choravam nos velórios: “… a cama onde alguém morreu é feita com lençóis novos e toda a mais roupa correspondente nova também ou, pelo menos, em bom uso, e assim se conservava durante sete dias, indo junto dela três vezes por dia durante esse tempo um certo numero de mulheres recitar preces e orações, terminando no sétimo por fazer um dia. Também junto à cama se coloca uma mesa com duas toalhas de linho, novas, dois pratos com mantimentos, uma malga, pão, etc. É de preceito que cama e roupa, mesa, adereços e mantimentos se dêem a um ou mais pobres, mas como, em geral, as rezadeiras são pobres, recebem elas tudo, além de, em cada um desses sete dias, uma ração de pão, bacalhau, batatas, feijões e azeite suficiente para a sua sustentação nesse dia e 120 réis em dinheiro. Também se pagava a seco este serviço à razão de 240 réis por dia a cada rezadeira. Durante as rezas segundo a pessoa informadora nos afirmou convictamente via-se ou, pelo menos, julgavam ver, um vultozinho deitado na cama, correspondente à silhueta do falecido…”[2]. 

            Eis algumas preces judaicas recolhidas por Amílcar Paulo, em Carção, que muito provavelmente, eram citadas durante o decorrer das cerimónias fúnebres.    

 

            Orações pelos mortos

 

            Deus Todo-Poderoso, Rei do Universo.

            Deus vivo e fonte da vida, tem agora compaixão dele.

            Para que ele caminhe na região dos vivos e que a sua alma repouse no fecho da vida.

            Adonai, Amem[3].

 

            Orações pelos mortos

 

            Que possas tu encontrar as portas do Céu abertas, ver a cidade pacífica, as tranquilas moradas.

            Que os anjos te recebam com alegria.

            Que o Supremo Sacerdote te receba e, indo para a tua última morada, possas repousar ali em paz.

            Adonai, nosso Deus, Rei do Universo, vela por nós[4].

 

            No início do século XX, o costume de contratar carpideiras perdeu-se por completo, pelo menos, deixou de ter a importância de outrora. Na povoação continuou a persistir a função da rezadeira, contratada não para chorar nos velórios, mas para recitar orações nas cerimónias.

            A nossa conterrânea Sofia Jerónimo, confidenciou-nos que ainda se lembra de, nos anos 60, sempre que na aldeia se constasse que alguém tinha falecido e o sino o anunciava, levava-se a casa do defunto uma candeia cheia de azeite, que lá ficava a arder até ao funeral. Também se passava um bocado da noite junto dos familiares ou se pernoitava lá, se as relações fossem mais íntimas. Eram distribuídas fatias de pão de trigo ou centeio por todos os presentes, fatias que ninguém rejeitava. Se a pessoa não era necessitada, dava as fatias àqueles que precisavam.

            Outro costume de extrema importância de que também nos falou, era o de recitarem orações no quarto do moribundo antes de dar os últimos suspiros. No quarto devia estar gente, pois dizia-se que “ao nascer e ao morrer, gente quer haver”. Entre muitas outras, rezava-se a seguinte:

 

 

Oração dita antes dos últimos suspiros do moribundo

 

Alma minha tem-te aqui,

Que Jesus morreu por ti pregado numa cruz.

Lá no monte de Josefás (?),

O Demo encontrarás e te perguntará:

“Alma minha onde vais?”

E tu lhe responderás:

“Arreda, arreda Satanás,

Que esta alma não terás.”

 

(aspersão do quarto e cama com um ramo de oliveira molhado em água-benta que estava no quarto).

 

No dia de Santa Cruz,

Mil vezes disse, Jesus, Jesus, Jesus.

Valha-me a Arvore da Santa Cruz.

 

(Pai-Nosso)

 

Acolhei Senhor esta alma,

Na Vossa Eterna Mansão,

Que mereça a Vossa Palma,

O Vosso divino perdão.

Misericórdia Senhor,

Misericórdia Senhor.

Esta alma aspira por Vós,

Tende dela compaixão,

Pelo Vosso infinito amor,

Rogai por ela Santa Mãe de Deus,

Para que se lhe abram as portas do Céu.

 

(Ladainha a todos os santos)

 

Os presentes respondiam:

 

- Tende piedade dele Senhor, …

- Rogai por ele,

 

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     Fig.2 - Courbet - enterro em Ornans
 
 
 
 
       Realização: Paulo Lopes 
 
 

[1] RODRIGUES, Francisco António Fernandes – Carção, suas gentes, usos e tradições. Vimioso: C. M. de Vimioso, 2000, pág. 24. 

[2] ALVES, Francisco Manuel – Memórias Arqueológicas do Distrito de Bragança. Bragança: C. M. Bragança e Instituto Português de Museus, Tomo VII, 2000, pág. 699 - 700

[3] PAULO, Amílcar – Os Judeus Secretos em Portugal. Labirinto, Lda, 1985, pág. 91.

[4] PAULO, Amílcar – Os Judeus Secretos em Portugal. Labirinto, Lda, 1985, p. 92.

[5] Oração citada por Sofia Jerónimo a 12 de Dezembro de 2006

 


 

 

publicado por almocreve às 20:38
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2 comentários:
De Belchior Rodrigues a 22 de Julho de 2007 às 00:13
Olá carçoneiros!
espero que tenham todos umas férias muito agradáveis.
Não tenho adjectivos para classificar este texto. No minimo maravilhoso.
Obrigado sr. Paulo Lopes, poe nos dares a conhecer mais um pouco da cultura desse maravilhoso povo.
De sandro leonardo a 5 de Março de 2008 às 23:14
Obrigado Sr. Paulo, moro na Cidadee De Caxias - Ma (Brasil) , estou relaizando uma pesquisa sobre nossas queridas carpideiras para encaixá-las em uma apresentação da Procissão od Fogaréu de nossa cidade que acontece na madrugada de quinta feira santa! obtive informações maravilhosas deste seu histórico!
grato pelas informações:
Sandro Leonardo
sandrolb10@hotmail.com

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