Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008

Jornal "Terra Quente" volta a dar destaque à história de Carção

 

 


 

 

 

 

 

CARÇÃO CAPITAL DO MARRANISMO

 

Nos próximos dias sairá da tipografia um livro dos autores com aquele título, editado pela Associação Cultural dos Almocreves de Carção (contacto: www.almocreve.blogs.sapo.pt). Pretende-se que a publicação do livro seja apenas mais um passo para a criação da Rota de Turismo Cultural que há anos vimos desenhando neste jornal. E, como sempre temos dito, um tal objectivo não poderá ser conseguido sem uma forte participação das autoridades e organizações locais e regionais, nomeadamente as câmaras municipais e juntas de freguesia. E também não poderá uma tal Rota circunscrever-se a Carção e Vimioso e tão pouco ao Planalto Mirandês. Aliás, a herança judaica e marrana não é exclusiva de Carção, antes é património comum e todos nós teremos uma gota de sangue judeu, como escreveu Jorge Luís Borges, muito especialmente nós os Trasmontanos – herança que o imortal escritor argentino também reivindicava, com orgulho.

Assim sendo, perguntará o leitor: então porque há-de a aldeia de Carção reivindicar o título de Capital do Marranismo? Porque não há-de ser Vinhais ou Chacim, Bragança ou Vila Flor… Belmonte ou Trancoso, Castelo de Vide ou Tomar?

Naturalmente que qualquer das terras apontadas (e outras ainda, tal como em Espanha) poderão disputar o título e apresentar argumentos mais ou menos convincentes. De modo algum os autores se consideram donos da verdade ou têm nisso qualquer interesse. Muito menos querem alimentar qualquer polémica sobre o assunto, polémica que seria sempre estéril e despropositada.

Porventura, na escolha do título terá pesado o facto de, profissionalmente, ambos terem vindo da área do turismo antes de se dedicarem à investigação e estudo dos cristãos-novos de Trás-os-Montes processados pela Inquisição. E pesaria o facto de a mesma edição do livro ter sido encarada como um passo mais para a criação de uma rota de turismo, como atrás dissemos, se bem que os autores tenham já publicado bem mais trabalhos sobre outras terras desde há quase uma década, como os leitores deste jornal sabem.

De certo há, inquestionavelmente algumas terras portuguesas onde as marcas da presença judaica em monumentos de arquitectura são bem mais fortes e visíveis, do que em Carção. Dizemos presença judaica, sim. E dizemos monumentos de arquitectura, sim. E se dissermos presença marrana? E monumentos etnográficos, formas de ser e estar?

Aqui começaremos a alinhar os nossos argumentos. É que, em Carção, parece nem sequer terem existido judeus. Pelo menos, até hoje, ninguém apresentou qualquer prova dessa presença. Antes pelo contrário, tudo indica que a comunidade hebreia de Carção se terá constituído apenas no período que se seguiu à expulsão dos judeus de Espanha e de Portugal, com gente ida de outros sítios, que ali não tinha heranças materiais, nem culturais, nem religiosas, tão pouco. E terá sido já na condição de marranos que eles construíram os laços da comunidade e criaram uma “praxis” religiosa muito própria que certamente chocaria os guardiães da tradição e os dogmáticos do judaísmo.

Existem exemplos significativos em Carção desta “praxis” marrana como é o caso das cerimónias religiosas que celebravam em casas particulares e na capela cristã de Santo Estêvão a que davam o nome de missas ou missas secas. Ou em uma procissão festiva vestirem de luto e levarem no andor a imagem de Nossa Senhora do Rosário, com as roupas de uma viúva da aldeia cujo marido fora processado pela Inquisição. Ou colocarem em um altar em veneração, uma jovem da aldeia, que fosse bela, como se de Nossa Senhora se tratasse. Ou utilizar paramentos da igreja matriz para enfeitar carros de bois e vestir meninos e meninas. Ou celebrar a festa do Kipur não às escondidas, no interior de suas casas, mas indo em romagem para os vinhedos, em grupos de homens e mulheres.

Mas há um episódio muito simples mas ainda mais revelador desta “praxis” religiosa, menos ortodoxa e dogmática e dessa condição marrana. Aconteceu em plena rua. Estavam três ou quatro Carçonenses à conversa quando chegou um outro vindo do Mogadouro e trazendo um congro que ali tinha comprado. À vista do peixe, logo um deles lhe disse que era proibido comer daquele tipo de peixe, como constava do livro judaico que o mestre barbeiro trouxera de Itália. Mas logo houve quem saísse a contradizê-lo, com este argumento:

 

- O livro da minha mulher é melhor do que o do barbeiro pois deixa que se comam peixes como o congro!

 

Que outra comunidade marrana apresenta uma tal prática religiosa, muito fervorosa, é certo, mas bem pouco ortodoxa? Não é isto, afinal, o Marranismo, uma forma de vida, um espaço de religião entre o Judaísmo e o Cristianismo, um fenómeno muito próprio surgido como resposta aos esbirros da Inquisição?

Um segundo argumento em favor de Carção deriva da crueldade com que eles foram tratados pelo tribunal do Santo Ofício. Pode falar-se de verdadeiro massacre, de um autêntico holocausto. Com efeito, em uma terra isolada nos confins das montanhas que teria uns 120 vizinhos (400 moradores), aquele tribunal ali prendeu umas 130 pessoas, no curto espaço de uma década e quase duas dezenas desses prisioneiros acabaram queimados nas fogueiras acesas em autos-de-fé.

Que outra comunidade cristã-nova portuguesa foi assim massacrada?

Não temos números precisos (encontrar-se-ão com o estudo dos registos paroquiais no arquivo distrital de Bragança) mas estamos convencidos de que a comunidade marrana de Carção era mais numerosa do que a dos cristãos e ainda muito mais preponderante, do ponto de vista económico e social. E aqui temos o testemunho do padre António Vieira (Obras Escolhidas, vol. VI, p. 91) citado por António José Saraiva (Inquisição e Cristãos-Novos, p. 152) nos seguintes termos:

 

- António Vieira diz-nos que existiam no seu tempo povoações inteiras constituídas exclusivamente por Cristãos-Novos, e a esse número devia pertencer a aldeia dos Carções, no distrito de Bragança, cuja personalidade de “judeus” ainda hoje é apontada pelos vizinhos.

 

Refira-se que o padre António Vieira foi penitenciado no auto-de-fé de 13-15 de Fevereiro de 1667, exactamente o mesmo em que se queimou o primeiro Carçonense, Francisco Lopes de Leão que a si mesmo se apresentou perante os inquisidores como “verdadeiro judeu e professor da Lei mosaica”.

Sim: apesar do massacre de que foram vítimas ou talvez em consequência disso mesmo, os marranos de Carção revelaram uma extraordinária capacidade de resistência à Inquisição. E a resistência foi a tal ponto que roubaram da igreja matriz os cerca de 20 sambenitos dos relaxados que a Inquisição ali mandou pendurar para exemplo dos outros e como prova do “crime”.

Em que outra terra se viu uma tal prova de resistência, uma acção assim concertada de desobediência à Inquisição? Mas para isso tiveram de comportar-se como os mais cumpridores dos cristãos da terra.

Em nome da fé mosaica, eles continuaram a resistir e a sua resistência manteve-se mesmo depois da extinção do ignominioso tribunal. A ponto de, em 2.6.1852, o pároco da freguesia escrever para o bispo de Bragança o seguinte:

 

- Neste povo grassa desde tempo imemorial uma seita que em tempo da Inquisição era isso muito oculto mas de 1834 a esta parte é isso muito divulgado, quero dizer: não se escondem os sectários como outrora; assim há muita gente que pelo menos in confuso sabem disso… O erro é a seita ou Lei Mosaica.

 

Já mesmo em pleno século XX, foi o líder da comunidade marrana que ditou para o Abade de Baçal a maior parte das orações que este publicou e eles continuavam a rezar e lhe deu informações sobre as festividades que continuavam celebrando, sobre os usos e costumes que continuavam seguindo, sobre os valores que continuavam respeitando. E o mesmo Abade (Memórias Arqueológico Históricas do Distrito de Bragança, vol. VII, p. 698) fez questão de frisar, omitindo, naturalmente, o nome do informador, escrevendo:

 

- Estas orações foram-me ditadas por uma pessoa deste povo, convicta praticante da “Lei mosaica” e até director religioso, espécie de sacerdote. Pelo que ela nos disse, conclui-se que a liturgia mosaica já está ali muito adulterada, mas seguem-na no que sabem e há muitos adeptos.

 

Finalmente, o argumento de mais peso, porque baseado na vontade de um povo que, passados 500 anos sobre a expulsão dos judeus, decidiu, nos órgãos próprios de governo da freguesia, adoptar como símbolo maior da sua bandeira exactamente uma “menorah” (candelabro de 7 braços). E se a comunidade quer, quem poderá negar-lhe o direito de proclamar Carção Capital do Marranismo? No fundo, o nosso livro apenas vem mostrar de modo mais claro e evidente como esse anseio é legítimo e bem fundamentado. E acreditamos que, depois de o ler, ninguém contestará aquele título. E nós ficamos contentes e sentimo-nos recompensados do muito trabalho que nos deu quando ouvimos um Carçonense confessar:

 

- Nunca li um livro que me desse tanto gozo como este!

 

 


NOTA: A Almocreve mais uma vez, agradece todo o trabalho realizado pelos dois autores do livro "Carção, a capital do marranismo" - Maria Fernanda Guimarães e António júlio Andrade e também ao Jornal Terra Quente por já ter dedicado tantas páginas à história de Carção.

 

publicado por almocreve às 20:53
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3 comentários:
De B. Rodrigues a 5 de Agosto de 2008 às 12:13
Bom dia Carção
Estou maravilhado com tudo o que se tem dito acerca da história de Carção.
Obrigado almocreves por estar a realizar tão meritória obra e divulgarem tanto a nossa cultura.
Como poderei adquirir os livros?
De Anónimo a 5 de Agosto de 2008 às 13:35
Estou maravilhada com toda a referencia ao povo marrano de Carção.
Muito obrigado Almocreves por nos dar tanta informação sobre a história de Carção.
Boas férias
De Ricardo Moreno a 3 de Setembro de 2008 às 21:59
Gostaria apenas de acrescentar de acima da Menorah parece estar uma mezuzah, simbolo presente na entrada de todas as casas judaicas.

Bem Haja

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