Domingo, 12 de Outubro de 2008

Carção é a aldeia que conserva mais tecedeiras...

 

 Foto: Feira de Artesanato 2007

 

 

 

Luísa Minga, 53 anos, é a última de uma família de tecedeiras de Carção, no concelho de Vimioso, aldeia onde ainda vivem cerca de uma dúzia de artesãs do tear, apesar de só já restarem cinco que o fazem esporadicamente. A avó, mãe, tias e irmãs foram tecedeiras, as filhas fugiram de uma profissão que exige uma paciência quase infinita.

Terra onde existiam de todos os ofícios, Carção chegou a ver urdir teia sobre teia entre 40 a 50 mulheres que viviam da arte de manusear o tear, ofício que não cativa as raparigas de agora e que, por isso, poderá estar em risco de extinção. As tecedeiras mais jovens já dobraram os 50 anos e, apesar de há poucos anos se ter realizado na localidade um curso de formação em tecelagem, as formandas não deram continuidade à actividade, ainda que uma se tivesse aventurado e chegado a comprar um tear. “Acabou por desistir, isto não é fácil, está toda o dia sentada”, conta Luísa Minga, que vê no peso do tear e no seu difícil transporte um entrave à entrada de jovens na actividade. Tecer é uma actividade de resignação e perserverança, de tal ordem que motivou Penélope, a mais célebres das tecedeiras conhecidas na história da humanidade, enquanto aguardava o regresso de Ulisses. Quase sempre se tece em retiro, não fossem os dedos de conversa que se trocam com quem entra e sai e com a família e a solidão seria quase total. O tear é difícil de deslocar para a soleira da porta, onde sempre se trocam opiniões com quem passa. As costas, os dedos e os olhos sofrem com a exigência do trabalho, neste caso alumiado com a escassa luz de uma fresta, em anexo de cimento, sem qualquer tipo de aquecimento e conforto. “Nunca aqui tive lume, sempre me fui arranjando assim”, garante a tecedeira de Carção.  

Motivos que sobram quem quer outros trabalhos. “Isto vai acabar tudo, os novos não querem, as profissões dos pais passavam para os filhos, mas isso era dantes, as minhas filhas não querem saber nada disto, uma ainda entrou uma vez ao tear, numa manta de farrapos, mas não quis”. Ela confessa que tem pena, gosta muito, “o tear dava-se mais do que a costura, que ainda tentei aprender”.

Luísa Minga foi uma tecedeira tardia, começou bem depois do que as irmãs, que deram as primeiras laçadas ainda meninas, e do que a maior parte das jovens da terra, que aprendiam o ofício mesmo antes de se sentaram nos bancos da escola, aquelas que tinham o privilégio de se poderem alfabetizar. Casos raros. Quarta classe feita, lá pelos “11 anicos”, recorda a tecedeira, passou a andar com o pai “a caminho da horta”, como a missão de orientar a mula que andava em volta da nora para puxar água. É que o raio do bicho não se cria sacrificar sozinha em tarefa tão rodopiante. “Ela não queria andar só em volta da «noria»”, relembra. Além das tonturas de tanto andar à roda, à roda, Luísa Minga ainda andava descalça, para poupar os sapatos, já que tinha de passar por poças de água. Lá ia cantarolando uma modinha, para não dar pelo peso do tempo que tardava em passar.

A sério, a sério, só começou a tecer já casada, iniciou-se com as mantas de farrapos, depois aventurou-se pelas cobertas (colchas), porque as outras três mulheres da família, mãe e duas irmãs, já não tinham mãos a medir para as encomendas. Não foi difícil entrar no ofício de tanto que já as tinha visto tramar a teia do tear, sempre foi ajudando a fazer as franjas das ditas cobertas.

Tempos difíceis eram aqueles que exigiam viagens pelas aldeias à procura de clientela ou a levar encomendas. “Muita gente procurava, não havia estes tendeiros que andam pela porta agora a vender”. Os cobertores de lã, quentes, mas pouco “amerosos” (macios), que picavam no corpo eram feitos em Santulhão, mas elas também os armavam. “As senhoras traziam a lã, o algodão ou o linho, primeiro tingíamos a lã, da cor que era pedido, em grandes caldeirões, era nas têmperas fervíamos a lã onde deitava-mos as tintas. Tínhamos de estar sempre a mexer para não se pegar ao fundo da caldeira, era então lavada e seca ao sol”.

Havia quem fizesse uma colcha em 15 dias ou um mês, mas para tal feito era preciso estar ao tear noite e dia. “A minha mãe não saia, trabalhava madrugada fora, na encomenda das Almas, na Quaresma, parava momentaneamente quando o grupo de cantores cruzava a rua ao pé de sua casa, para não parecer mal, estar a trabalhar pela madrugada, mal passavam continuava a tecer”. As encomendas eram muitas, havia necessidade de lhe dar vazão. “Ela só vivia disto, o meu pai fazia agricultura, mas não dava nada”. Tanto esforço pouco recompensado era, as cobertas eram baratas, chegavam a ser vendidas a cinco coroas (2$50) ou cinco escudos. Mesmo assim a mãe teceu até aos 84 anos.

Luísa Minga ainda aceita encomendas, o trabalho é agora mais rentável e uma colcha das abertas, custa entre 200 a 250 euros, as fechadas vão para mais, porque exigem muito trabalho. Este ano tem tido sempre encomendas, carpetes, tapetes, naperons, “mas já não é como antigamente, vêm uma senhora ou outra por surpresa”, referiu.

Tece em qualquer material, algodão, lã ou linho. Noutros tempos tecia em linho fino, belas toalhas e lençóis. “Dava muito trabalho, como era muito fino era preciso andar sempre a bater de um lado para o outro a lançadeira, levava-me um dia a tecer três ou quatro varas, mas também havia a estopa, um linho mais grosso”.

 

Fonte:http://www.o-informativo.com/content/view/2046/51/

 

 

publicado por almocreve às 22:08
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3 comentários:
De Anónimo a 18 de Outubro de 2008 às 18:00
olha o senhor policia:)
De Anónimo a 7 de Novembro de 2008 às 14:07
Se o dia de Nossa Senhora das Graças, Padroeira de Carção, é 27 de novembro, por que os carçonenses comemoram no último domingo de agosto, inclusive com a belíssima Procissão de Velas?
Elenir
De Anónimo a 12 de Novembro de 2008 às 08:36
é fácil...porque em Novembro fái um frio de rachar o pessegueiro...

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