Terça-feira, 11 de Novembro de 2008

Algumas orações dos marranos/cristãos-novos de Carção...

 

Gottlieb-Jews Praying in the Synagogue on Yom Kippur 


  

“Assim como meu corpo está seco,

Meus beiços lavados,

Meu sangue derretido,

Assim me outorgueis Senhor o que vos pido”1].

 

 


 

Adaptação da oração do Pai-Nosso, rezada pelos marranos/cristãos-novos de Carção, no século XX:

 

Senhor, que estais nas alturas,

Por Vossos altos favores,

Vos chamam os pecadores:

Padre-Nosso.

A Vós, Senhor, como posso

O Vosso nome invocarei,

Pois decerto, eu bem sei

Que estais nos céus;

Amparai, Senhor, um réu,

Que muito ver-vos deseja,

Que Vosso nome seja,

Santificado,

Eternamente sejais louvado,

Por tais modos:

A uma voz digamos todos:

Seja,

Do dizer ninguém se peja,

Nem o mais de Vos louvar;

Só deve triunfar,

O Vosso nome,

Matai-nos a nossa fome,

Com o bem da Vossa mão,

E do céu, meu Deus o pão

Venha a nós.

Amparai-nos sempre Vós,

Dando-nos pão e mais pão,

E por fim, em conclusão,

O reino Vosso.

Fazei que seja nosso

Esse reino da verdade;

Sempre a Vossa vontade

Seja feita.

Quando dermos conta estreita,

Convosco, meu Deus, me veja,

Para perdoar-me seja

A Vossa vontade.

Dai-nos lá, na eternidade,

À Vossa vista um lugar;

Já que andamos a peregrinar

Assim na terra,

É assim que se desterra

Uma dor como tal prazer,

Pois melhor lugar não pode haver

Como no céu.

Em tempo algum seja réu,

Por culpas que não cometi;

A todos daí, como a mim,

O pão nosso.

Eu prometo ser tão Vosso

Que por Vós morrerei;

Sempre Vos louvarei

Cada dia.

Dai-nos prazer e alegria,

Com poderes da Vossa mão,

E a todos o perdão

Nos dai hoje,

Que de Vós ninguém foge,

Antes se chegam a ti contritos;

Porque sois Deus dos aflitos,

Perdoai-nos

E por amor amparai-nos!

Felizes os que de Vós amparo têm;

Absolvei-nos, também,

As nossas dívidas,

Que por serem contraídas

Temos todos grande dor;

Perdoai-nos, Senhor,

Assim como nós

Havemos mister, e Vós,

Se acaso o perdão nos dais,

A perdoar nos ensinais,

Perdoamos.

Que é glória Vossa, e damos

O perdão por mui bem feito,

Pois perdoar é preceito,

Aos nossos,

Pois, por sermos todos Vossos,

É mui justo o perdão,

Para que não haja, não,

Devedores,

Assim como os Vossos favores,

Que qualquer é superior,

Agora, por Vosso amor,

Não nos deixeis.

Senhor, não desampareis

Barro que não é valente,

Pois se deixa facilmente

Cair;

Cuidai muito em nos acudir

Com auxílios eficazes,

Que de cair somos capazes

Em tentação;

Esteidei-nos a Vossa mão,

Senhor, com todo o cuidado,

De contrair o pecado

Livrai-nos

Meu Deus e Senhor, dai-nos

Zelo e serviço fecundo,

E livrai-nos neste mundo

De todo o mal,

Agora, diga já cada qual,

Com bem puro e firme amor:

Louvado seja o Senhor.

Amem.[2]


 

Orações dos marranos/cristãos-novos de Carção dos finais do século XVII

 

I

Ó alto Deus de Abraão,

Ó forte Deus de Israel!

Tu que ouviste a Daniel,

Ouve a minha oração.

 

Vós, Senhor, que vos pusestes

Lá em cima nas alturas,

Ouvi-me, a mim, pecador,

Que vos chamo das baixuras.

 

Pois a toda a criatura

Abristes o caminho da fonte,

Levantei ao céu meus olhos

Donde virá minha ajuda.

 

A minha ajuda virá

Do verdadeiro Senhor

Que fez o céu e a terra

E o mar e quanto há nela.

 


 

II

Ó meu Deus, governador!

Ouvi alto meu clamor,

Ouvi a minha oração

Que minha boca se não perca

Entregai-vos, Senhor, dela.

Não me metais em juízo

Pois tendes todo o poder.

Livrai-me da vossa ira

E tende-me de vossa mão.[3]


 

Aguardo tu Mercedes,

Lo que tu mi gran Dios puedes,

Me muestras tan llano e claro,

E pues le sirves de amparo

Aquel que tu gran Dios quieres.

Sem tu poder no se mueve

La menor cosa del mundo.

Muéstrame en esta ocasión

Como te acuerdas de mi.

Si los leones por ti remueven

Su condición alaben el señor

Tal impasible, en lo impasible,

Inmortal en lo inmortal;

Hoy en el paso en que estoy

Memoria quiero hecer

De todos quedan confesados

Si tanto capaz yo soy.4]



[1] Esta oração judaica foi encontrada no processo de Maria da Costa, filha de Brites Lopes e de António da Costa, gentilmente cedida por M.ª Fernanda Guimarães.

[2] Amílcar Paulo, Os judeus secretos em Portugal, ed. Labirinto, 1985, pp. 98-99; David A. Canelo, Os últimos criptojudeus em Portugal, 1987, pp. 154-157.

[3] Fernanda Guimarães e António Andrade, Carção – a capital do marranismo, 2008, pp. 57-58

[4] Esta oração judaica, em língua castelhana, foi citada por Francisco Lopes de Leão em 1667. Encontra-se também no livro: Fernanda Guimarães e António Andrade, Carção – a capital do marranismo, 2008, pp. 61-62

 

publicado por almocreve às 18:57
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4 comentários:
De Anónimo a 12 de Novembro de 2008 às 02:38
Shalom!
Simplesmente divinais. Adorei as orações e o blogue.

Zilma Salvador
De Anónimo a 13 de Novembro de 2008 às 12:34
Bom dia carção
adorei estas orações
De Anónimo a 21 de Novembro de 2008 às 20:01
gostei imenso destas orações.
Têm mais algumas que possam partilhar?

Shavua Tov
De B. Rodrigues a 23 de Novembro de 2008 às 01:32
Boa noite.
Obrigado por colocarem algumas orações. muitas ainda não conhecia

Bem Hajam

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