Sábado, 24 de Março de 2007

5ª Proposta às 7 Maravilhas de Carção

Retábulo de São Roque

           

            A capela de São Roque situa-se a uma altitude de 711 metros, de fronte para a povoação.

            Não existem documentos que abordem a edificação da capela assim como do seu retábulo. O primeiro documento data já de 1751, onde o Pe. Luiz Cardoso, refere: «Ha dentro deste Lugar as Ermidas de S. Roque...»1.

            O retábulo é o mais antigo e de maior valor artístico de toda a povoação, pertencendo ao período de estilo barroco nacional, entre o último quartel do século XVII (1675) até ao primeiro quartel do século XVIII.

            Esta maravilha artística, derivada à sua estrutura e ornamentação deve ter sido executado nos finais do século XVII ou inícios do século XVIII (entre 1690 a 1700), uma vez que ainda apresenta algumas influências do período anterior (maneirismo).

            A planta é de perspectiva côncava de um corpo e três tramos.

            No sotobanco, a mesa de altar já não é a original. Inicialmente, deveria apresentar um grande painel ornamentado com enrolamentos de acanto ou então coberto com um tecido que se deveria alterar conforme as cerimónias. Sobre esta, presentemente surge um painel pintado a imitar o mármore e três florões em alto-relevo, quadriculares.

            No banco, os painéis que suportam as colunas exibem enrolamentos de acanto. Os que estão no seguimento das pilastras florões e o central, que está no prosseguimento da tribuna, entre as folhas de acanto irrompe uma cabeça de serafim.

            No corpo do retábulo, as colunas são de capitel compósito e fuste em espiral (colunas pseudo-salomónicas) com seis bojos e cinco cavados ornamentados com motivos eucarísticos (parras, cachos de uvas e pássaros). Usualmente, as uvas são constituídas por um ou dois cachos de bagos bem rechonchudos e os pássaros ou fénices (símbolo da ressurreição) apresentam particularismos bastante interessantes e pouco usuais na região, tais como: exibirem entre o bico bagos de uvas, com o bico a arranjar vaidosamente as suas plumas ou simplesmente a debicar os cachos.

            Na tribuna irrompe uma peanha ornamentada com enrolamentos de acanto de suporte à pequena imagem de São Roque.

            No entablamento, os painéis do friso são compostos por florões. A arquitrave e a cornija apresentam pequenos enrolamentos de acanto.

            Nas extremidades do corpo do retábulo (entre o banco e entablamento) surgem enrolamentos, volutas e folhas de acanto, bem ao gosto do período maneirista.

            O remate exibe dois arcos concêntricos e uma aduela, que nos fazem lembrar as portadas românicas e manuelinas. O arco espiralado, que dá seguimento às colunas interiores, está ornamentado com folhas de parra, cachos de uvas e pássaros (a debicar as folhas) e o arco apainelado, localizado no seguimento das pilastras, apresenta folhas de acanto, assim como a aduela.

            O coroamento é feito através de um pássaro que se encontra sobre a aduela que poderá simbolizar o Espírito Santo.

            Embora não seja um retábulo monumental é de assinalar o valor artístico que comporta, pois as alterações sofridas ao longo dos séculos foram quase nulas (apenas o sotobanco já não é o original) ao contrário do que temos vindo a verificar em grande parte dos exemplares investigados na região da Terra Fria.

            Também gostaria de apontar a degradação verificada, principalmente a desastrosa pintura. Os dourados que tantos caracterizam os retábulos barrocos, foram substituídos por cores inimagináveis que retiram a leitura do retábulo, pintado talvez por algum curioso ou que pouco ou mesmo nada entendia sobre o seu valor e técnicas aplicadas na época.

            Se gostar de saber mais acerca deste e outros retábulos, ver mais informações na Almocreve nº 2 “Talha Dourada na povoação de Carção – os retábulos entre o último quartel do século XVII até metade do século XIX”, pp. 29 – 40.  



1 Cardoso, P. Luiz, Diccionario Geografico, Tomo II, Lisboa, 1751.

publicado por almocreve às 20:37
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7 comentários:
De a 25 de Março de 2007 às 08:36
Bom Dia Mestre!
Mais uma vez, felicito-te por este espaço tão agradável. É muito interessante ver a forma carinhosa como abordas a história da tua aldeia.
Embora não perceba nada de talha, pois de história da arte tu é que és o perito, gostei de ler o artigo. Está bastante esclarecedor e demonstra bem a grande maravilha ou importância que este tem derivado à datação e o alerta deixado para rápida intervenção.
Espero que o aviso sensibilize a população ou responsáveis e que esta maravilha seja o espelho da povoação e região, uma vez que as alterações sofridas ao longo dos século foram quase nulas.
Um abraço.
De Bar´digreja a 25 de Março de 2007 às 18:21
Faço das palavras de Jô também as minhas.
Acho que as entidades responsáveis deveriam olhar para o nosso património de outra forma, valorizando-o e respeitando-o. Infelizmente, em Carção, num reparo mais atento, o pouco que ainda existe está tudo abandonado. Não é só o retábulo de São Roque, se observar-mos também muitas das maravilhas que aqui são referidas estão também muito mal tratadas tais com: o coreto (cheio de lixo), a fonte (também cheia de lixo), o cruzeiro do Vale (dentro de um quintal a servir de estendal de roupa) etc. É uma tristeza o que se passa!... a casa do gualter , uma autêntica maravilha que foi recentemente derrubada, a casa do povo antiga que tinha também uma fachada lindíssima, enfim, uma infinidade de exemplos...
De Luís Filipe a 26 de Março de 2007 às 11:54
Já que falas em desrespeito, em Agosto reparei que o coreto estava cheio de lixo e também reparei no cruzeiro que fazia de estendal...
De B.R. a 26 de Março de 2007 às 11:40
Bom dia.
Também concordo que o património carçonense está muito despresado. É uma pena ver tantos edificios interessantes abandonados ou destruídos. Hoje Carção está a ficar muito descaracterizada e como ela era linda (a praça, as fontes, o bairro de cima)!...
De Fred a 26 de Março de 2007 às 16:49
Olá pessoal. Bonita página!
A minha maravilha preferida é a cruz de Vale Palácios. Obrigado pelas fotos pois é um monumento que não conhecia.
De Anónimo a 27 de Março de 2007 às 15:00
Bom dia!
Em breve estarei em Carção. As saudades que tenho do folar, rosquilhas, enconómicos....
De Carçoneiro a 27 de Março de 2007 às 15:32
É a primeira vez que visito este blogs e estou fascinado. A ideia de escolher as maravilhas de Carção é excelente assim como o roteiro por cada uma. Alguns ainda não conhecia como a cruz de Vale Palácios ou o altar de São Roque que embora já estivesse presente na sua festa várias vezes nunca tinha observado o seu maravilhoso retábulo. Também não fazia ideia que em Carção existissem retábulos tão antigos e de valor artístico.
Parabéns à associação pelo meritório trabalho que tem vindo fezer nestes últimos anos. Só espero que este e outros sejam mais respeitados e despertem mais atenção pelas autoridades responsáveis.

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